Direção perigosa: remédios psicotrópicos podem alterar os seus reflexos

Por Rafaela Rebouças

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Jonathan Yang é um estudante de economia de 21 anos. Responsável e cauteloso, ele nunca chegou a dirigir depois de ingerir bebidas alcoólicas. “Eu sempre bebi socialmente. Mas, quando eu era o motorista da rodada, eu não bebia absolutamente nada. Sempre tive muito medo de misturar álcool e direção”, contou o estudante.

 

A precaução de Jonathan, contudo não o livrou de um acidente no final de 2011. O estudante sofria de depressão e, por isso, estava tomando antidepressivos. Em uma noite, quando saia da casa da namorada em direção ao seu apartamento na zona oeste de São Paulo, Jonathan acabou saindo da pista e batendo o carro em um poste. “Eu estava me sentindo um pouco mole naquela noite por conta do remédio, mas achei que tivesse condições de dirigir. Voltando pra casa que eu vi que eu não conseguia me manter na minha faixa e acabei batendo o carro”, relatou Jonathan, que por estar de cinto e em baixa velocidade só teve ferimentos leves no acidente.

 

A dona de casa Renata Lisboa, de 42 anos, também passou por uma situação parecida com a do estudante. Ela também chegou a bater o carro, ainda no terceiro mês de tratamento para depressão. “A minha sorte foi que eu estava chegando em casa, então eu bati na garagem”, relatou.

 

O aumento do consumo de remédios psicotrópicos tem chamado a atenção para comunidade médica sobre as possíveis consequências de dirigir sob o efeito dessas substâncias. Em recente pesquisa realizada por pesquisadores norte-americanos, verificou-se que o uso de substâncias psicotrópicas pode reduzir a capacidade de dirigir. O estudo foi aplicado em uma amostragem limitada, apenas 60 pessoas foram submetidas a testes simulados de direção, concentração e reação. Contudo, o resultado obtido por pesquisadores da Universidade de Dakota do Norte mostrou que, as pessoas que haviam consumido altas doses de remédios psicotrópicos, estavam com a aptidão para dirigir prejudicada.

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O que são substâncias psicotrópicas

 

As drogas psicotrópicas são substâncias químicas que agem diretamente no Sistema Nervoso Central (SNC), a parte do corpo responsável por controlar os estímulos do nosso organismo.

 

Essas substâncias são bastante utilizadas no tratamento de distúrbios psíquicos, como: depressão, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, déficit de atenção, esquizofrenia etc.

 

Antidepressivos e benzidiazepínicos são os remédios psicotrópicos mais conhecidos atualmente, inclusive elas já estão presentes no dia-a-dia de muitos brasileiros. De acordo com levantamento feito para o Estado de Minas pelo IMS Health, instituto de pesquisa que faz auditoria para o mercado de medicamentos, mais de 42,3 milhões de caixas de antidepressivos foram vendidos no Brasil só em 2012.

 

Como essas substâncias agem

 

Segundo o médico neurologista Dr. Marco Novaes, as substâncias com bases nessas drogas agem diretamente no Sistema Nervoso Central, alterando a comunicação entre os neurônios presentes no Sistema Nervoso Central, isto é, elas produzissem efeitos anormais nesta comunicação entre os neurônios.

 

“Na verdade, essas substâncias prejudicam as habilidades cognitivas e psicomotoras justamente por aturem no sistema nervoso central produzindo alterações mentais e comportamentais. Toda informação captada através dos cinco sentidos fica comprometida com o uso dessas drogas, já que com o uso delas ocorre comprometimento das funções mediadas pelo córtex pré-frontal nesses sujeitos”, explicou Dr. Novaes. 

 

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Quais os ricos de dirigir sob o efeito de remédios psicotrópicos

 

As pessoas que fazem tratamento com estas substâncias tende a fica mais tranquila, sonolenta e relaxada. Devido aos antidepressivos e benzidiazepínicos atuarem no sistema de neurotransmissão gabaérgico, facilitando a ação do GABA, que é o principal neurotransmissor inibidor no Sistema Nervoso Central. Como esse neurotransmissor é inibido, essas drogas acentuam os processos inibitórios do Sistema Nervoso Central, provocando um efeito depressor.

 

“Essa combinação é bastante perigosa se pensar que ao dirigir devemos assumir uma postura oposta, temos que estar atentos e alertas. Então, pode ser bem imprudente pacientes que fazem uso desses medicamentos dirigir”, disse o neurologista.

 

A empresária Marília Vilhena, de 37 anos, faz uso de remédios que controlam a sua ansiedade a cerca de oito meses. No início do seu tratamento, ela foi orientada pelo seu psiquiatra a evitar dirigir durante a utilização da medicação. “Desde que eu comecei a tomar esses remédios, eu optei por seguir a orientação do meu médico e parei de dirigir, principalmente a noite que precisamos de mais atenção. Há um mês, eu reduzir a quantidade, mas ainda não me sinto confortável. Eu ainda prefiro ir para os lugares de taxi”, afirmou à empresária.

 

Para a médica residente Jana Regis é de extrema importância o médico orientar os seus pacientes sobre os efeitos dos medicamentos que eles estão tomando e, principalmente, sobres às devidas cautelas a serem tomadas. “Muitas vezes o paciente não é informado pelo médico de quais são as restrições que ele precisa seguir e também eles não verificam a bula do remédio que traz todas essas informações extremamente necessárias. Principalmente, para que se for necessário, o paciente evite dirigir durante o tratamento”, disse a médica.

 

Outro ponto levantado é que apesar do desconhecimento por parte da maioria das pessoas, o álcool também é considerado uma droga psicotrópica. De acordo com a médica residente, a sua ingestão dessas bebidas provoca uma mudança no comportamento de quem o consume, além de ter o potencial para desenvolver dependência. “O álcool é uma das poucas drogas psicotrópicas que tem seu consumo admitido e até incentivado pela sociedade. E, Esse é um dos motivos pelo qual é encarado de forma diferenciada, quando comparado com as demais drogas”, explicou.

 

Recentemente, o Brasil deixou a punição mais dura quem dirige sobre o eleito de álcool. A nova Lei Seca, sancionada em dezembro de 2012, passou a considerar crime o motorista que dirige com índice de álcool no sangue superior a 0,34 miligrama de álcool por litro de ar expelido ou 6 decigramas por litro de sangue. Contudo, para as outras substâncias psicotrópicas não existe nenhuma legislação que restrinja o seu consumo antes de assumir a direção.

 

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